Era uma vez um reino (empresa) onde todos viviam felizes. O rei (presidente) era bom e justo, os aliados (acionistas) nunca traíam o reino, o povo (empregados) trabalhava cantando. As colheitas (produtos) eram de boa qualidade e abundantes e no tesouro real (tesouraria) havia uma boa reserva (capital de giro). Isso permitia vender o excesso das colheitas (exportações) por bons preços (lucros). No entanto, invejosa da prosperidade do reino, uma bruxa má (a aranha esfinge) lança uma maldição sobre o reino e exige que, para desfazer o feitiço, fosse-lhe entregue a filha do rei. Isto havia ocorrido porque, sem querer, um dos camponeses mais zelosos (gerente) havia plantado um cereal (novo produto) que era a especialidade da aranha e, assim, a deixara enfurecida. Ao lançar a praga (tentativa de take-over agressivo na Bolsa), as colheitas tiveram de ser vendidas a preços baixos para poder manter a reserva que refinanciaria o plantio. Claro, a filha do rei (subsidiária lucrativa) não queria casar com a aranha, pois esta sempre sacrificava os súditos (lay-offs permanentes de pessoal).
O príncipe encantado (comunicólogo-chefe) recebe do rei a missão de acabar com a aranha esfinge. Ele aceita, senão seria decapitado (demitido), mesmo sabendo que muitos dos fios que levam à teia onde estavam a aranha eram eletrificados, continham precipícios e outras armadilhas. Veste sua reluzente armadura azul-marinho, suas esporas Gucci, enrola no pescoço o talismã mágico (gravata de seda pura Countess Mara), tira do baú sua espada (PC IBM PS2) e monta em seu fogoso corcel Mercedes Benz. Leva consigo as bênçãos da fada-madrinha (secretária) e, após terríveis lutas com grifos (fornecedores), unicórnios (bancos), medusas (sindicatos), hidras de Lerna (clientes), gárgulas (secretárias de outros reis-presidentes e ministros), leões de Neméia (concorrentes) e javalis do Erimanto (vários outros públicos), consegue chegar à aranha esfinge, que lhe propõe decifrar um enigma, o que ele resolve facilmente, por já ter lido um dicionário de bolso de Mitologia.
Qual não é a sua desilusão quando percebe que o monstro não passa da holding company de um concorrente e que, quando volta para o reino-empresa, este já havia feito uma joint-venture com um grupo internacional, que a princesa nem virgem era, que o rei-presidente era agora o príncipe-vice-presidente da nova empresa e havia mudado de cidade. Quando foi reclamar seu prêmio no novo rei-presidente, este só falava inglês e com sotaque do Texas (idiograma que nosso herói não entendia) e já estava lá um “assessor-especial”, usando uma espada MBA de Princeton e fazendo curso intensivo de português...
Nosso herói da fábula acabou tendo o seu valor reconhecido, fez um estágio de seis meses na matriz, aprendeu inglês e voltou fortalecido para o seu posto – e mais precavido. Depois de dois anos, aceitou um cargo de diretor de Comunicação Empresarial em uma outra empresa, teve muitos filhos (fringe-benefits) e vive feliz até hoje. O texano fez alguns negócios privilegiados com as ações da empresa – lá fora isso se chama inside information e é crime -, foi despedido e está respondendo a processo. Deve pegar uns seis anos e mais uma super multa (quem mandou voltar para Dallas?). O tal “assessor especial” foi passar o carnaval em Salvador, gostou tanto que se casou com uma baiana, teve um filho, o que evitou a sua extradição, pois era unha-e-carne com o Texano) e hoje possui três saveiros turísticos em operação.
*Roger Cahen é relações públicas e exerceu cargos ligados à gerência de comunicação e marketing em grandes empresas públicas e privadas do Brasil. É autor do livro Tudo o que os seus gurus não lhe contaram sobre comunicação empresarial, de onde eu tirei este texto.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário