por Eugênio Mussak
Quando eu reclamei para o garçom que o filé que eu havia pedido ao ponto tinha vindo tão estorricado que me lembrou a cena do filme Em Busca do Ouro, em que Charles Chaplin come a sola de uma bota velha, ele me respondeu candidamente:
- É que a casa está sem chefe de cozinha.
Disse isso e foi atender ao aceno de um cliente de outra mesa, deixando-me sem saber se me conformava com a situação, se me levantava e ia embora ou se provocava uma cena de indignação. Chamei o maître, que se limitou a dar sua versão:
- Eu já falei para o gerente que os fregueses estão reclamando, mas ele ainda não fez nada.
Pasmo, limitei-me a pedir a conta. O filé não comido estava sendo cobrado. Indignado, pedi para falar com o gerente, que disse:
- Desculpe, senhor, mas o dono do restaurante é uma pessoa muito ocupada e eu ainda não consegui falar com ele sobre a contratação de um novo chefe de cozinha.
Não pude acreditar no que estava ouvindo. O que mais me causou espanto foi a imensa cascata de transferência de responsabilidade. Comportamento semelhante ocorre em grandes empresas – instituições financeiras, prestadores de serviços, órgãos públicos. A culpa – “desculpe senhor” – é sempre do outro. É oportuno lembrar que, quando Max Weber disse que uma empresa é uma burocracia, ele não estava se referindo a uma organização com escalões estanques não corresponsáveis, e sim a um sistema de normas que existem para facilitar a sua operação.
E a norma principal é que a empresa tem de funcionar bem, com responsabilidades divididas entre os níveis hierárquicos, mas com o exercício permanente da colaboração entre eles. A transferência de responsabilidade é, provavelmente, o maior sinal da falência funcional. É o começo da temporada de caça às bruxas, que só acaba quando começa outra, a temporada de procura de um novo emprego porque a firma faliu. Aliás, outro dia notei que, no lugar do restaurante, agora há um pet shop.
* Eugênio Mussak é professor do MBA da FIA e consultor da Sapiens Sapiens.
domingo, 26 de abril de 2009
domingo, 5 de abril de 2009
Soneto do amor total - liiiindo poema
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade,
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amor mais do que pude.
*Vinicius de Moraes
Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1913, e faleceu na mesma cidade, em 9 de julho de 1980. Poeta, compositor, cronista, ficcionista, dramaturgo, crítico de cinema e tradutor. Obra poética: O caminho para a distância (1933), Ariana, a mulher (1936), Forma e exegese (1936), Novos poemas (1938), Cinco elegias (1943), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Antologia poética (1954), Livro de sonetos (1957), Novos poemas (1959), Obra poética (1968), O falso mendigo, poemas de Vinicius de Moraes (1978), Vinicius de Moraes: poemas de muito amor (1982) e Poesia completa e prosa (1998).
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade,
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amor mais do que pude.
*Vinicius de Moraes
Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1913, e faleceu na mesma cidade, em 9 de julho de 1980. Poeta, compositor, cronista, ficcionista, dramaturgo, crítico de cinema e tradutor. Obra poética: O caminho para a distância (1933), Ariana, a mulher (1936), Forma e exegese (1936), Novos poemas (1938), Cinco elegias (1943), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Antologia poética (1954), Livro de sonetos (1957), Novos poemas (1959), Obra poética (1968), O falso mendigo, poemas de Vinicius de Moraes (1978), Vinicius de Moraes: poemas de muito amor (1982) e Poesia completa e prosa (1998).
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