De fato, como diria Caetano Veloso, a língua que se diz em cada canto da Bahia parece ter seus próprios mestres.
Num sábado, em Ipitanga, o bom sorriso da morena aproximava-se de mim, oferecendo acarajé, passarinha, abará, cocada ou qualquer coisa que pudesse sair daquele tabuleiro. Já era tarde; perguntei, então, se ainda havia algo quente, ali, que pudesse se comer. “Só a passarinha está meia morna” – disse-me ela. E é aqui que mora o trunfo daqueles que sabem onde o vento faz a curva!
“Meia morna” jamais! Nesse contexto, a palavra “meio” modifica o adjetivo “morna”; trata-se, pois, de um advérbio. Os advérbios são palavras invariáveis (meio morna, meio morno, meio mornas, meio mornos). Não confundir com meia noite ou meia hora, onde se pode variar o termo “meio”, pois este se refere ao substantivo “noite” e “hora”, quantificando-os de modo exato, assumindo a classificação de numeral – palavra variável. Assim, também se diz “meio dia”, “meio” turno, “meios dias”, “meios turnos”.
Outro caso polêmico é o da palavra “bastante”: não estamos acostumados a empregá-la no plural. Ouve-se, então, “bastante propagandas”, “bastante automóveis”, “bastante ofertas”. Fale sério! Bastante, nesses casos, assume o valor de “numeroso”; devendo flexionar-se como se fosse a palavra “muito”. Dessa forma, quando for possível usar “muitos” e “muitas”, emprega-se “bastantes”: “O Itaú mostra crianças em muitas propagandas”, “O Itaú mostra crianças em bastantes propagandas”; “Já eram muitos automóveis em promoção”, “Já eram bastantes automóveis em promoção”; “Muitas ofertas ainda virão”, “Bastantes ofertas ainda virão”. Por outro lado, se não há variação para “muito”, o mesmo se faz para “bastante”: “As irmãs de Larissa viajam muito”, “As irmãs de Larissa viajam bastante”; “Seu humor parece muito sofisticado”, “Seu humor parece bastante sofisticado”, “Cheguei muito cedo”, “Cheguei bastante cedo”.
Nos primeiros exemplos citados, “bastante” refere-se a substantivos (“propagandas”, “automóveis”, “ofertas”) podendo, assim, variar. Em vez disso, nos últimos exemplos, além de indicar intensidade, “bastante” modifica verbo (“viajam bastante”), adjetivo (“bastante sofisticado”) e advérbio (“bastante cedo”); sendo, pois, um advérbio – palavra invariável.
Vale frisar também que “bastante” pode ser um adjetivo. Esta palavra é da mesma família do verbo “bastar”. Ao pé da letra, bastante é o que basta, o que é suficiente. Assim, afinando-se com o sentido de “suficiente”, “bastante” também obedece às suas devidas flexões.
Certo, então, está o senhor Luís Inácio Lula da Silva ao dizer “há recursos bastantes”, pois se diz “Há recursos suficientes”.
O detalhe é que, mesmo errando, “meia morna” da morena agride menos o ouvido baiano, mal acostumado, que “recursos bastantes” do metalúrgico que se constituiu Presidente da República. Aí, já é uma questão quase partidária! Falei!
*Tarsis Vaz foi meu professor de Gramática no 3º ano do ensino médio. Revi esse texto há poucos dias, enquanto estudava gramática, no módulo do 3º ano, por causa da disciplina Sintaxe da Língua Portuguesa, que "estou pegando" (ui), na UFBA. :P
domingo, 28 de setembro de 2008
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